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CICLO ESQUECIMENTO DA POLITICA | Programa Cultura e Pensamento

Esquecimento e memória, Luiz Felipe de Alencastro

Íntegra da Conferência - áudio/mp3
realizada no teatro Maison de France, em 29/08/2006

O tema do esquecimento e da construção da memória política é central no trabalho do historiador e na
constituição da cidadania. Chateaubriand (1768-1848), romancista e historiador, tinha uma visão heróica do papel do
historiador. Em 1807, num ataque frontal a Napoleão, escreveu: “Quando, no silêncio da abjeção, só se ouve o som
da corrente do escravo e da voz do delator; quando tudo treme diante do tirano e expor-se a seu favores é tão perigoso
quanto incorrer em sua desgraça, aparece o historiador, exercendo a vingança dos povos”.

Refletindo sobre a interação entre memória, esquecimento, história e cidadania, Paul Ricoeur (1913–2005), um dos
mais importantes filósofos contemporâneos e autor de uma obra capital sobre o assunto, escreveu: “O
escritor-historiador faz a história. O leitor faz a história e, fazendo a história, ele transforma o fazer do
historiador em fazer de cidadão” [1]. Ricoeur distingue as várias formas de esquecimento e de trabalho de memória
que envolvem os indivíduos, as sociedades e o campo histórico.

Assim, diante dos grandes dramas históricos que atingem e dividem os países e as comunidades políticas, o que há é
um esquecimento traumático. No século do descobrimento do Brasil, a derrota de dom Sebastião em Alcácer-Quibir
(1578), que desbaratou o exército português no Marrocos – resultando em cerca de 2.000 cativos aos mouros, na morte
do rei, no desaparecimento do seu corpo e, por fim, na submissão da coroa portuguesa à espanhola entre 1580 e 1640 -,
gerou um esquecimento traumático em escala metropolitana e colonial. Como assinalou Lucette Valensi, só em 1607, ou
seja, uma geração após a catástrofe, apareceu em Portugal o primeiro livro sobre o tema (Jornada de África, escrito
por Jerônimo de Mendonça) [2]. Da mesma forma, os franceses desenvolveram depois da Segunda Guerra Mundial uma
memória seletiva e oficial acerca de uma França combatente, em que a maioria esmagadora da população resistira por
todos os meios ao nazismo e à ocupação alemã; memória que só seria contraposta em 1973, com a edição francesa do
livro do historiador americano Robert Paxton, La France de Vichy. Ao denunciar a colaboração do Estado francês com os
nazistas e na perseguição dos judeus franceses, La France de Vichy provocou uma “revolução epistemológica” na
historiografia francesa, contribuindo para formar uma visão mais equilibrada da história e da cidadania do país.

Na sociedade brasileira, há traumas históricos fundamentais que passam pelo processo alternado de esquecimento e
rememoração para constituir a nossa contemporaneidade. Em longo prazo, há o drama histórico do tráfico negreiro e
do escravismo, crucial não só para os afro-descendentes, que em breve serão maioria na população brasileira, como
também para entender as divisões e a violência que definem a sociedade atual. Em médio e curto prazos, há o drama
da ditadura (1964-1985), sobre o qual escreveu um dos participantes do seminário 1954-1964-2004: O golpe, memória e
atualidade, organizado pela USP e pela Unicamp, em novembro de 2004: “Comemorar não é apenas celebrar fatos
pregressos. Comemorar - memorar em comum, coletivamente - é também evocar um passado envolvido no esquecimento por
obra do tempo ou trauma da memória. Nesse sentido, comemorar os 40 anos do golpe de 1964 significa pensar o passado
para liberar o futuro dos fantasmas que ainda pairam no presente”.

[1]. Paul Ricoeur, « Entre la mémoire et l’histoire », Transit – Europäische Revue, n. 22, 2002, voir surtout
son important livre, La Mémoire, l'histoire, l'oubli, Paris, Le Seuil, 2000.
[2]. Lucette Valensi, Fables de la mémoire. La glorieuse bataille des trois Rois, Le Seuil, Paris, 1992.

Luiz Felipe de Alencastro é professor titular da cátedra de História do Brasil na Universidade de Paris IV Sorbonne.
Além de artigos no Brasil e no exterior e do ensaio A economia política do descobrimento em A descoberta do homem e do
mundo (Companhia das Letras), publicou O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul (Companhia das
Letras). Organizou o volume 2 da coleção História da vida privada no Brasil : Cotidiano e vida privada no Império
(Companhia das Letras).

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visite o blog: http://filosofiacomcafe.blogspot.com/ para mais palestras.

CRÉDITOS: http://www.cultura.gov.br/programas_e_acoes/cultura_e_pensamento/

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